PATATIVA DO ASSARÉ.
Nosso poeta do sertão
Antônio Gonçalves da Silva , Mais conhecido por Patativa do Assaré, era um caboclo, daqueles que pode ser chamado de matuto. Praticamente analfabeto tinha nas veias a poesia. Tudo que falava era na base de poemas que ele mesmo nem sabia definir. Criado num ambiente de roça próximo a cidade de Assaré. Filho de um agricultor. Certa ocasião sofreu um acidente e veio ao Rio de Janeiro para se tratar. Eram dias que antecediam a um carnaval. Ouvindo de longe o batuque dos sambistas, veio o café da manhã, e ele viu que só tinha café e pão sem manteiga. Na hora do almoço, não veio a bóia. Que até então não tinha falhado. O que veio foi um pouco de farofa para todos os pacientes daquele hospital. No ambulatório onde estava Patativa tinha mais 12 pessoas. A tarde a janta foi uma comida desconhecida. Ele nunca soube que comida era aquela.
No dia seguinte a tarde ele que era o animador da turma dos acidentados se pois a falar a respeito do que estava acontecendo. Então em forma de poesia começou falar com São Francisco de Assis. "Meu São Francisco de Assisi (Assis), meu santo, meu bom amigo, qual foi o mal que lhe fiz para me dar tanto castigo ?
Seu amor nunca se apaga, é venerado seu nome. Se tiveres comida me traga. To com fome. O senhor foi penitente padeceu tanta amargura, e hoje trata seu doente com farofa e sem gordura. depois nos traz uma janta de coisas desconhecidas ? Meu santo, isso não adianta, tenha dó da minha vida e a janta que ainda não chega é a nossa grande aflição, tirou tambem a manteiga que tinha no nosso pão.
Eu preciso ser feliz e o senhor de "nois" se esquece, meu São Francisco de Assis, tenha dó de quem padece.
Na sala ao lado estavam as irmãs que ouviam tudo que Patativa falava em vós alta. Uma delas se aproximou dele e disse:
-Seu Antônio Gonçalves, esta o senhor atacando o hospital ?
Então eu a respondi: Irmã, Irmã Natalia, a senhora é que não sabe interpretá a minha poesia. Eu tenho a minha poesia como coisa sagrada. Eu falo para Deus, eu falo para os santos, e aqui estou falando para São Francisco de Assis. Eu não mencionei o nome de pecador! E a senhora vem aqui para se meter porque ?
Não... aqui é de mim para São Francisco. Depois a irmã Joaninha que trazia o suco todos os dias pra gente. Certa vez o suco não estava bem doce. Era um doce bem por longe, viu ! E a irmã Joaninha muito educada, gostou do verso que eu fiz, até pediu uma copia.
Então disse: este Rio de Janeiro, é uma terra encantada até pelo até pelo estrangeiro. É terra bem visitada, mas dentro desses encantos eu vejo uma coisa muito errada.
Um Rio a gente admira, ninguem pode reprovar, porem eu sou um matuto que tudo sei observar. E aqui tem uma mentira que eu não posso perdoar. Por exemplo: O pão de açúcar que bastante encanta a mim, nunca houve neste mundo quem fizer-se um pão assim. e se ele fosse de açúcar, já tinha levado fim, descobri isso no suco que a enfermeira trouxe, vi que a grande fartura do pão de açúcar, que acabou com o açúcar para um suco sem doce.
PATATIVA, era casado com dona Belinha e tinha três filhas.
Miriãm, Lúcia e Inês.
Para elas patativa fês esses versos:
Minha filhas eu vejo que são três, e cada qual é da beleza irmã.
Se eu quero Lúcia, muito quero Inês, da mesma forma eu quero Miriãm. Vendo a meiguice da primeira filha, vejo a segunda que me tem de encantamento a mesma estrela que reluz e brilha.
Se olho a terceira, vejo a mesma santa. Se cada uma com fervor venero, não sei dizer, fico confuso sem saber das três qual a mais linda, e qual a mais quero. Se a Miriãm,se é Lúcia, ou Inez. E já velho apesar de quando em quando, que livremente voltarei ao pó. Eu sou feliz e morrerei, pensando que as três filhas que eu tenho é uma só.
Escrito por mário Lopomo às 21h17
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MÃE PRETA
Eu quero com grande amor dizer Mãe preta quem era.
Mãe preta dava a impressão da noite de escuridão, com seu mistério profundo escondendo seus "pranetas" foi ela, preta mais preta, das pretas, que eu vi no mundo. Mas porem de alma pura, que era branca como aurora, e tinha doce ternura da virgem nossa senhora. Quando o dia amanhecia pra minha rede ela ia, dizendo palavra bela. Pra cozinha me levava e um cafezinho eu tomava sentado no colo dela. Quando as brincadeiras lhe davam contrariedades a minha mãe verdadeira, com sua autoridade vinha e brigava comigo, e num gesto de castigo, botava os óios pra mim.. Mas, porem não me batia. Somente porque sabia que mãe preta achava ruim. Por isso eu não tinha medo, sempre contente vivia mexendo nos meu brinquedos, e fazendo estrepolia dentro da nossa morada. Pra mim não faltava nada. O meu mundo era Mãe preta. Foi ela quem me ensinou muitas cantigas de amor e brincar de carrapeta. Se as "veis" brincando tava de brabuleta pegá, infezado me afobava e impaciência chorar ela com muita alegria com certo jeito fazia com muito carinho e com muito amor eu apanhava as barbuletas. Foi ela uma santa preta que o mundo de Deus criou. Se chegava a noite escura com seu negrume sem fim, ela com muita ternura chegava perto de mim cochichava e depois que me beijava me levava para drumi sobre seus braços lustroso. Aquilo sim era gozo, aquilo sim era vida, e depois de me apoiar na minha pequena rede, balançava devagar pra não bater na parede, cantando esse lindo verso. Que todo nosso universo, outro mais lindo não vi. Enquanto ela me balançava e esse versinho cantava eu procurava drumi.
Dorme dorme, meu menino, já chegou a escuridão. A treva da noite escura, tá cheia de papão.No teu sono terás meio da rosa e do bom garri, e os espíritos bem fazejos, te defende do saci. Dorme o teu sono inocente com Jesus e com Maria, até chegar novamente o Clarão do novo dia. Escutando com respeito esses versos pequeninos eu sentia no meu peito tudo quanto era devido. De toada até sertaneja veio o bendito da igreja. Veio o toque da retreta e ali ficaram gravado este verso cantado por minha boa Mãe preta. Mas porem eu bem menino que nem sabia pecar, os espinhos do destino começaram a me curar. Mãe preta que era contente tava um dia deferente. Preguntei o que ela tinha. E assim que ela olhou pra eu, dois pingo de água desceu dos óios da coitadinha. Daquele dia pra cá minha querida mãe preta não pode mais me ajudá na pega de brabuleta. Dentro dos quarto vivia sem prazer e alegria o dia e a noite inteira. Sem achá consolação em riba de seu crochão de folha de bananeira.
Quando ela pra mim oiavá, como que tendo desgosto a minha mão apertava e o pranto moiava o seu rosto, Vivia de sofrimento naquele seu aposento. No quarto que ela vivia, me proibiram de entrar pros oios não magoá, da dor que a pobvre sentia. Eu mesmo me levantei, qual foi a surpresa minha. Quando um dia acordei bem cedo e nem devia, entrei na sala e dei fé que o magote de muié, tava fazendo oração. E vi Mãe preta vestida numa roupona comprida alva da cor do algodão . Vi no teu peito cansaço, depois os home chegaram levantaram ela nos braço e numa rede botaram. A rede tava amarrada numa peça preparada de madeira bem polida e naquela mesma hora, levaram de estrada a fora minha Mãe preta querida.
Mamãe com muito carinho chorando mesmo, me disse: Meu filhinho, sua Mãe preta, MORREU
E outra coisa me dizendo, senti meu corpo tremido. Me considerei um réu. Perdi na vida o prazer com vontade de morrer, pra ver Mãe preta no Céu.
Ps: Este texto foi escrito conforme sua linguagem, portando o não uso de plural e do singular refere-se da sua maneira simplória de dizer.
GLOSSÁRIO.
praneta ( planeta) Óios (olhos) Drumia (dormia)
Precurava ( procurava) Deferente (diferente) Preguntava (perguntava)
Crochão ( colchão) Muié (mulher) Brabuleta (borboleta) Tava (estava)
Veis ( vezes) Pegá (pegar) Oiava (olhava) Moiava (molhava) retreta (banda) Bendito da igreja (padre) Bem fazejo (fazer o bem)
Bom Garri - Saci ( duendes - do folclore brasileiro)
Escrito por mário Lopomo às 21h16
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A TRISTE PARTIDA
Meu deus, Meu deus. Setembro passou, outubro e novembro. Já tamo em dezembro, meu Deus o que é de nois. Assim fala o pobre do seco nordeste, com medo da peste, da fome feroz. A treze do mês ele fez experiência, perdeu sua crença na pedra de sal. Mas nossa esperança com gosto que agarra, pensando na barra do alegre Natal. Rompeu-se o Natal, porem barra não veio, o sol bem vermelho, nasceu muito alem. Na copa da mata, buzina cigarra, ninguem vê a barra, pois barra não tem. Sem chuva na terra, descamba Janeiro, depois fevereiro, e o mesmo verão. Entãose o nortista pensando consigo, disse é castigo, não chove mais não. Apela pra março que é o mês preferido, do santo querido senhor São José.
Mais nada de chuva , tá tudo sem jeito, lhe foge do peito o resto da fé. Agora pensando, ele segue outra trilha, chamando a família, começa a dizer. Eu vendo o meu burro, meu jegue, e o cavalo. Nois "vamu" a São Paulo viver ou morrer. Nois vamu a São Paulo que a coisa tá feia, por terras alheia nois vamu a vagá. Se o nosso destino não for tão mesquinho, ai pro mesmo cantinho nois torna vortá. e vende seu burro, jumento e o cavalo, inté mesmo o galo venderam tambem. Pois logo aparece feliz fazendeiro por pouco dinheiro lhe compra o que tem. Em um caminhão ele joga a família chegou triste dia, já vai viajar. A seca terrível que tudo devora, ai lhe bota pra fora da terra natal. O carro já corre no topo da serra, olhando pra terra seu berço seu lar. Aquele nortista partindo de pena bem longe da cena adeus meu lugar. No dia seguinte já tudo enfadado e o carro embalado veloz a correr, tão triste coitado falando saudoso, com seu filho choroso exclama a dizer. De pena e saudade, papai sei que morro. meu pobre cachorro quem dá de comer ? Já outro pergunta mãezinha querida e meu gato com fome sem trato, Mimi vai morrer. E a linda pequena tremendo de medo. mamãe meus brinquedos, meu pé de fulor. Meu pé de roseira, coitado ele seca e minha boneca tambem lá ficou. e assim vão deixando com choro e gemido do berço querido céu lindo e azul. O pai pesaroso nos "fiús" pensando, e o carro rodando na estrada do sul. Chegaram a São Paulo com cobre quebrado, e o pobre acanhado percura um patrão. Só vê cara estranha, de estranha gente, tudo é diferente do caro torrão. Trabáia dois ano, trêis ano, e mais ano. e sempre nos pranos de um dia vortá, mais nunca ele pode, só vive devendo e assim vai sofrendo e é sofrer sem parar. Se arguma noticia das banda do norte tem ele por sorte o gosto de ouvir. Lhe bate no peito, saudade de móio, e as água no zóio começa a cair. Do mundo afastado ali vive preso sofrendo desprezo devendo ao patrão. o tempo rolando vadia e vendia e aquela familia não vorta mais não. Distante da terra tão seca mais boa, exposto a garoa, a lama e o baú. Faz pena o artista, tão forte e tão bravo, viver como escravo, no norte e no sul.
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Assim escrevia Patativa. Não se preocupando com plural ou singular, essa é forma do nordestino falar.
Glossario: Barra (nuvem chuvosa) Vamu (vamos) Vagá (andar) Vortá (voltar) Pena (triste-tristesa) enfadado ( cansado - entediado) Fulor (flor) Cobre Quebrado (pouco dinheiro) Trabaia (trabalha) Torrão (lugar que nasceu) Pranos (planos) Móio (seu povo) Vadiá (andar)
Fius ( filhos) Percura (procura) zóio (olho)
( não concordando podem corrigir)
Patativa do Assaré, morreu em julho de 2002.
Texto e Pesquisa: Mário Lopomo.21 de março, é o dia internacional da poesia. PATATIVA DO ASSARÉ é o simbolo dela.
Escrito por mário Lopomo às 21h15
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